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Egito, outra vez




Finalmente aconteceu. Horas atrás a Junta Militar do Egito tirou do poder o presidente constitucional Mohamed Morsy, suspendeu a Constituição e o Parlamento, pôs os principais líderes do partido de Morsy em arresto domiciliar, e nomeou o juiz Adly Mansour, chefe da Suprema Corte Constitucional, como presidente interino do país. Embora o período do interinato não tenha sido informado, especula-se que durará entre 9 e 12 meses, ou seja, o tempo que Morsy levava no poder.

O embaixador do Egito nos EUA, nomeado pelo ex-presidente Morsy, dizia na TV não se tratar de golpe de estado, e sim de que “os militares ouviram a voz das ruas”. Enquanto isso, a TV mostrava duas manifestações, igualmente massivas, uma anti Morsy à esquerda, e outra pró Morsy à direita.

Em Cairo, um dos líderes oposicionistas, declarava ser um “dia glorioso”, e que o país “não está mais dividido”. Em Luxor, um dos líderes da Irmandade Muçulmana, partido de Morsy, declarava que o país continuaria dividido, e que o golpe significava “uma volta aos tempos de Hosny Mubarak”, o presidente do Egito que ficou 30 anos no poder e foi deposto em fevereiro de 2011, no embalo da chamada Primavera Árabe.

É no mínimo curioso que um mesmo fato possa ser interpretado de formas totalmente opostas, dependendo de que lado do espectro político se está. Em qualquer dicionário, um movimento militar, com suspensão da Constituição, do funcionamento do Parlamento, e a nomeação de uma pessoa não eleita para a presidência do país corresponde à definição mais acabada de golpe de estado

A guerra retórica atualmente em curso demonstra que, na prática, as pessoas são capazes de justificar qualquer coisa. A Groucho Marx é atribuída a frase: “Estes são meus princípios. Se você não gostar, tenho outros”.

A queda de Mohamed Morsy vinha sendo anunciada há dias, depois de ter recebido um ultimato dos chefes militares. As acusações contra o presidente deposto, considerado o primeiro democraticamente eleito do Egito, vão desde corrupção e uso da máquina do governo em favor do seu partido, até ignorar as promessas de reforma política que o levaram ao poder há um ano, depois que a Irmandade Muçulmana obtivera maioria em ambas as câmaras do Parlamento.

Outro fato curioso é que Morsy vinha sendo acusado por uma parte dos opositores de ser um mero títere dos chefes militares, usado para manter o status quo do regime anterior, do deposto Mubarak. Se isto for verdade, ele teria sido tirado do poder pelos mesmos militares que até poucos dias atrás lhe davam sustentação.

Por que será que isto nos resulta tão familiar?

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