Tremendo o vídeo do encontro do presidente Trump, o vice-presidente J.D. Vance, e o Volodymyr Zelensky na Casa Branca. Não se tem notícias de outro caso na história em que um chefe de estado tenha sido tão mal tratado e mandado calar a boca como fizeram com o presidente ucraniano.
Zelensky se viu sozinho contra os dois titulares do Executivo que lhe deram uma reprimenda em uma língua que não é a sua, e não o deixaram falar. Contra a postura beligerante de Trump, Vance se mostrava com um sorriso irônico como dizendo, "Nada do que você falar aqui vai fazer diferença".
E certo momento, Zelensky pergunta ao Trump, "May I answer?" Trump lhe responde que não, que ele não tem as cartas para jogar, e "You're disrespecting the country. This country". Em momento algum Zelensky disse nada que possa ser interpretado como falta de respeito, nem ao presidente Trump, e nem ao povo americano. Aliás, Zelensky não conseguiu falar.
Foi uma autêntica cilada: Zelensky achou que tinha sido convidado à Casa Branca para assinar um entendimento, em que os EUA continuariam prestando ajuda bélica e para a reconstrução da Ucrânia, e garantias contra qualquer nova agressão russa.
Ao invés, Zelensky caiu numa emboscada em que Trump e Vance lhe deram uma violenta reprimenda para obrigá-lo a capitular ante Putin. O resultado, previsível ante o tratamento desrespeitoso de que foi objeto, foi que Zelensky se recusou a assinar qualquer acordo.
A seguir, Trump deixa de falar com Zelensky e se dirige à câmera - não é habitual que toda a conversa com um chefe de estado estrangeiro na Casa Branca seja televisada, muito menos ao vivo, só a parte protocolar, o aperto de mãos, etc. - e fala que Zelensky fez acordo com Biden, que Putin não respeitava Obama nem Biden, e que só respeita ele, Trump.
É preciso esclarecer que não foi Zelensky que fez acordo com Biden: foi a Ucrânia que assinou um acordo de assistência com os EUA.
A gente se pergunta o porquê da adoração de Trump pelo Putin, sem dúvida seu pior inimigo, e que já deu provas de não respeitar acordos: entre 50% e 75% dos ciberataques russos são contra os EUA.
Se Trump acha que porá Putin de seu lado contra China, está enganado. O tiro poderá sair pela culatra: Rússia e China são aliados, e têm muito mais em comum entre eles do que Trump imagina, principalmente o ódio pelos EUA, e seu desejo de derrotá-lo de todas as formas.
Os EUA não são mais os mesmos. Estamos vendo a história sendo reescrita.
Até pouco antes, analistas ainda especulavam se tudo não passaria de uma excepcional jogada do hábil negociador Trump. Depois do fracassado encontro de 28/2/25 com Zelensky, a Europa já chegou à conclusão de que os EUA de Trump não são mais um parceiro confiável.
De continuar nessa tessitura, é possível que Donald Trump tire de George W. Bush o nada honroso título de "the dumbest president ever".
Logo no início de seu mandato, alguém comentou que Donald Trump "está conseguindo unir todo o mundo contra os EUA". Concordo 100%. Em meus anos de vida nunca tinha visto tamanha arrogância ao vivo por parte de um Presidente dos EUA.
Trump supera amplamente o presidente G.W. Bush quando disse, "Either you are with us or against us". Naquele momento estava justificado: os EUA tinham sofrido o pior ataque terrorista da história em seu próprio solo, o atentado da Al Qaeda contra o Pentágono em Washington D.C., e contra o WTC em Nova York, em 11/9/2001.
O youtuber espanhol Marc Vidal opina que Trump usa o "método del loco", que funciona assim: para forçar a outra parte aceitar o que quer, o cara se mostra "loco", imprevisível, sem qualquer apego à lógica. Nesta estratégia de negociação, a outra parte se veria constrangida a aceitar condições que normalmente não aceitaria, por medo do que "el loco" poderia fazer caso não aceitasse.
Numa empresa em que trabalhei, um diretor superintendente, durante negociação com uma conhecida empresa mineira de pão de queijo, em resposta ao que a outra parte propunha, se despachou com um "Foda-se!".
Foi o que, na prática, Trump e Vance disseram ao Zelensky: "Foda-se! Ou você aceita nossas condições ou não terá nada".
Infelizmente, nas últimas intervenções (nada) diplomáticas de Trump, o VP Vance, o Secretário de Estado Marco Rubio, e o Secretário de Estado Peter Hegseth, dão a clara impressão de querer cagar regras ao resto dos países.
Embora, no caso da invasão da Ucrânia pela Rússia, a Europa tenha cometido uma série de erros, os EUA também os cometeram.
O mundo não pode aceitar passivamente as ameaças de Trump à integridade de terceiros países, como:
- Anexação do Canadá,
- Anexação da Groenlândia,
- Anexação do Canal de Panamá,
- A intenção de transformar Gaza numa "Riviera Paradise",
- Fatiar a Ucrânia e servi-la em bandeja à Rússia.
Estamos diante de um novo estilo, o da diplomacia da arrogância.
A administração Trump pretende jogar as culpas de tudo que está errado no governo do pusilânime Biden, mas não engana ninguém. Porém, enquanto Elon Musk e seu DOGE continuar descobrindo falcatruas bilionárias como as da USAID, vai manter a opinião pública americana entretida.
Mesmo que no início parecesse uma disputa restrita a dois países, há muito tempo ficou claro, principalmente para as grandes potências, que a questão da Ucrânia reveste importância global: países a milhares de km, como Irã, China, e Coreia do Norte se envolveram no conflito quando poderiam ter permanecido neutrais.
Os EUA foram tão responsáveis quanto a Europa em não permitir a Ucrânia usar as armas que recebeu para atacar a Rússia em seu próprio território, algo que a Ucrânia passou a fazer por conta própria, no desespero, quando a guerra já tinha 2 anos. Se a Ucrânia tivesse feito isso antes que o cansaço e a falta de recursos se fizessem presentes, a guerra já poderia ter acabado.
Os europeus viram claramente a ameaça e perceberam que, se Putin anexasse a Ucrânia, então Polônia, Finlândia, Suécia, e as três repúblicas bálticas seriam seus próximos alvos. Não por acaso, logo depois da invasão, tanto a Finlândia como a Suécia, que se mantinham fora na organização, negociaram e rapidamente obtiveram seu ingresso na OTAN.
Muito interessante o texto do The Daily Digest aqui.
Zelensky lamentou o erro estratégico cometido pela Ucrânia nos idos de 1994, décadas antes de ele chegar à Presidência, no Memorando de Budapest: a Ucrânia foi forçada pelas potências nucleares, notadamente EUA e a própria Rússia, a abrir mão de seus arsenais nucleares da era soviética, que se comprometeram a garantir a segurança do país.
Eram tempos de Boris Yeltsin (a quem Vladimir Putin sucedeu) quando, depois da implosão da URSS (1991), a Federação Russa se apresentava como amiga de Occidente - lembrar as divertidas cenas de Yeltsin em visita a Bill Clinton na Casa Branca.
A Russia violou esse tratado: não apenas não garantiu a segurança da Ucrânia, como a invadiu, em 2014 e 2022, com intenção de exterminar e/ou subjugar o povo, e anexar seu território.
Não há diferença com o que Hitler fez em 1938 com a Áustria e a Tchecoslováquia, e em 1939 com a Polônia, para dar somente alguns exemplos: invasão e anexação.
Zelensky não é "ditador", como o mal educado presidente Trump o chamou. Ele ganhou as eleições de 2019, e a Constituição Ucraniana permite que não sejam celebradas eleições em tempos de guerra.
Logo no início da invasão russa, em 2022, os EUA ofereceram a Zelensky e sua familia um salvo conduto. Ele respondeu: "I don't need a ride. I need ammo". Poderia ter fugido com a família, mas preferiu ficar ao lado de seu povo e conduzir seu país na guerra.
Zelensky e sua mulher eram comediantes, sim, mas qual o problema? Zelensky apresentou-se como candidato, e foi votado em eleição democrática pela maioria dos ucranianos para liderar o país.
Se a solução [nada diplomática] que alguns propõem é abaixar as calças para o invasor russo, o mais provável é que o povo ucraniano não aprove, haja vista o desprezo e o ódio que Putin sente pela Ucrânia e os ucranianos (como também por chechenos, georgianos, etc.), que nunca aceitaram se submeter ao jugo soviético.
Além disto, numa situação de guerra como a atual, se o consenso majoritário fosse em favor de capitular ante Rússia, o que impediria o alto comando militar ucraniano de depor Zelensky e assinar a rendição?

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