Como homem de comércio exterior sempre fui contra barreiras comerciais absurdas como a tarifa de 50% que o presidente americano Donald Trump impôs aos produtos brasileiros. Uma barreira dessa magnitude só se justificaria em caso de dumping comprovado, que não é o caso aqui, e sobre um determinado produto ou item tarifário, nunca sobre toda a pauta de exportação de um país.
A nova tarifa, que passa a valer a partir de 1° de agosto, já afeta a exportação de pescados e mariscos brasileiros. Importadores americanos começaram a cancelar encomendas por temor a que, as encomendas chegando aos portos de destino depois dessa data, tenham que pagar uma pesada tarifa que dificilmente poderão repassar aos preços de venda.
Menos ainda se justifica impor tarifas sobre um país como o Brasil com o qual os EUA, longe de ter déficit comercial, goza de um confortável superávit. Segundo analistas, a tarifa tem mais a intenção de punir o Brasil pela continuada violação dos direitos civis, por ter se colocado ao lado de China e Rússia, e por ter promovido com tanto afinco a causa dos BRICS, e a criação de uma moeda alternativa ao dólar para as transações intrabloco.
Se o Trump baseia suas decisões em ideologia, Lula também: ao assumir em 2023, deixou vaga a embaixada brasileira em Washington por mais de 6 meses, mesmo sendo o democrata Joe Biden o presidente na época. Esta atitude foi interpretada pelo governo Trump como desprezo pelos EUA por parte de um governo brasileiro cada vez mais amigo de personagens como Xi Jinping, Vladimir Putin, Ali Khamenei, e a organização terrorista Hamas.
O artigo até aqui foi escrito em 15 de julho, 6 dias depois de as tarifas sobre produtos brasileiros terem sido anunciadas. Confirmando mais uma vez seu apelido T.A.C.O. (Trump Always Chickens Out) nos últimos dias o presidente Trump retirou a tarifa de 40% sobre boa parte dos produtos brasileiros, o que o lulo-petismo prontamente festejou como resultado do charme e a capacidade de negociador do presidente brasileiro, que só havia conversado com seu par americano por 1’30”.
Agora, a questão das tarifas volta a ficar em suspenso. O motivo: a decretação da prisão de Jair Bolsonaro menos de 36 horas depois do anúncio da retirada da tarifa de 40% sobre parte dos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. Ao impor aquela alíquota em 9 de julho, o presidente Donald Trump havia citado o processo contra Bolsonaro como um dos motivos.
Ao levantar as tarifas sobre parte dos produtos brasileiros, o que Trump tem em mente não é favorecer o Brasil como parceiro comercial, mas aumentar as chances de seu Partido Republicano nas eleições de meio-termo em 2026. É fato que, menos de 1 ano depois de sua posse, a aprovação a Donald Trump vem caindo de mais de 50% para algo em torno de 42%.
Não deveria ser surpresa para ninguém. Em entregas anteriores, desde o começo de seu mandato eu avisei que impor tarifas generalizadas a todos seus parceiros comerciais e aliados estratégicos ia fazer o tiro sair pela culatra.
O dia 2 de abril de 2025, o chamado “Liberation Day”, quando Trump, desde os jardins da Casa Branca mostrou ao mundo aquele enorme quadro com as tarifas arbitrárias impostas a praticamente todos os países do mundo, deveria ser chamado de “Decadence Day”.
O fato de ser o único emissor do dólar, a principal moeda do mundo, torna os EUA dependentes da importação de produtos de terceiros países, da mesma forma que estes se tornam dependentes dos dólares que recebem por suas exportações para poder importar de outros países. Foi esta a ordem mundial, estabelecida nos Acordos de Bretton Woods, em 1944, que possibilitou aos EUA se tornar, nos 80 anos seguintes, a principal potência mundial, e o país mais próspero e rico do planeta.
Como Donald Trump, desde seus tempos de bem-sucedido empresário do ramo imobiliário, de hotéis e cassinos, costuma se rodear de yes-men é muito provável que nenhum de seus secretários ou conselheiros o tenha alertado para o risco de prejudicar, com essas tarifas insanas, em primeiro lugar a própria economia dos EUA, em grande medida dependente de produtos e insumos importados.
É fato que nenhum de seus parceiros comerciais mostrou muita pressa em negociar uma redução imediata. Não houve o alegado ass-kissing, o que levou Trump a anunciar tarifas que depois acabava suspendendo, reduzindo, ou mesmo eliminando.
Estas idas e vindas foram interpretadas por muitos como uma genial estratégia de negociação. Pode até ser, mas como eu particularmente avisei desde o início que, no ínterim, além de seus parceiros comerciais, acabaria prejudicando também a economia americana.
Em janeiro 2026 Trump completará 1 ano na presidência, ou seja 1/4 de seu mandato. Pela a tradição americana, o presidente que perde as eleições de meio-termo e fica em minoria no Parlamento se transforma em pato manco (lame duck), um presidente sem poder para fazer muita coisa além de esperar pelo fim de seu tempo na Casa Branca.
Isto seria um golpe tremendo para um homem com um ego do tamanho do Mount Rushmore como Donald Trump.

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