Nos últimos dias fomos surpreendidos por declarações de Vladimir Putin, presidente vitalício de Rússia, de que a guerra que ele mesmo começou em Fev/2022 contra a Ucrânia estaria chegando ao fim. A esta altura, mas de 4 anos depois, talvez nem o próprio Putin saiba o que o levou a enfiar seu país nessa loucura.
Relembrando. Em 27/02/2014 Putin mandou soldados russos, em uniformes sem identificação, tomar a península da Crimeia, que a Rússia alugava da Ucrânia e mantinha uma base naval no Mar Negro. Naquele momento, o presidente da Ucrânia era Viktor Yanukovich, títere de Putin tal como Aleksandr Lukashenko, o atual presidente da Bielorrúsia.
Para as tropas de Putin a invasão da Crimeia foi um passeio: os homens ucranianos que estavam na base só perceberam que se tratava de tropas russas de assalto ao serem expulsos de seu próprio território. A onda de protestos que se seguiram na capital Kiev, conhecida como Euromaidan, mostrou a clara intenção da Ucrânia de entrar para a CE e para a NATO, acabaram depondo Yanukovich que abandonou seu luxuoso palácio e se exilou na Rússia.
O mundo, e especialmente a Europa, pareceu não se importar – teve até alguns dizendo “Afinal, a Crimeia sempre foi russa” – e ainda permitiu que a Rússia, com grande pompa, organizasse a Copa do Mundo da FIFA de 2018.
Foi assim que, em 2022, Putin resolveu invadir de vez a Ucrânia. Na mente de Putin, sua “Operação Especial” duraria 2 semanas apenas. A desculpa: uma alegada e nunca provada perseguição da pequena população russo-fônica no leste da Ucrânia. Putin declamava querer “desnazificar” o governo do país vizinho.
Mais uma vez a Ucrânia foi pega de surpresa: os primeiros dias da invasão foram de terror com tanques russos passando sem dó por cima de carros de civis na capital Kiev. A impressão era que a Ucrânia não resistiria, e capitularia em questão de dias.
Mais uma vez a Europa fez como o avestruz que, ante uma situação de perigo, esconde a cabeça num buraco na terra, e se comportou como em Out/1938, quando as tropas nazistas invadiram a então Tchecoslováquia com a desculpa de defender os Sudetenland. É antológica a imagem do PM britânico Neville Chamberlain exibindo orgulhoso no aeroporto de Londres o papel com o compromisso de não agressão assinado pelo chanceler alemão Adolf Hitler. A Alemanha Nazi acabaria por invadir o resto do país, a Boêmia e Morávia, cinco meses depois, em Mar/1939.
Em 2022, demoraram para entender que, se a então principal potência nuclear do mundo conseguisse anexar a Ucrânia, os próximos alvos de Putin seriam a Polônia (já àquela altura membro da OTAN), e as três pequenas repúblicas bálticas, Letônia, Estônia e Lituânia. O sonho úmido, mas nunca admitido de Putin sempre foi restaurar a velha, fracassada e anacrônica URSS.
Não sem grande sacrifício a Ucrânia se defendeu bravamente, e expulsou os invasores russos de Kiev. A bilionária ajuda que a administração Biden deu em armas a Ucrânia foi efetiva, mas limitada: o país só podia usar as armas americanas para se defender, mas não para atacar alvos dentro do território russo, o que certamente teria abreviado a guerra.
Com Donald Trump de volta à presidência dos EUA, em 2025 houve uma reviravolta: Trump convocou o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky à Casa Branca, o acusou de não ter como a guerra ("You don't have the cards"), o humilhou publicamente na frente das câmeras, e suspendeu toda ajuda bélica a Ucrânia. Zelensky, que esperava renovar o acordo de ajuda bélica para se defender da agressão russa, saiu da sede do poder americano pela porta dos fundos e de mãos abanando.
A invasão da Ucrânia já dura mais de 4 anos. O país não consegue expulsar de vez o invasor, que por sua vez não consegue avançar
além dos aprox. 20% do leste da Ucrânia que ocupa há anos. Se Putin anda
falando em “fim da guerra na Ucrânia”, só pode ser por dois motivos:
- Putin pode estar querendo usar armas nucleares para forçar uma rendição incondicional da Ucrânia, o que seria extremamente perigoso, em termos de vidas e danos ao meio-ambiente, para toda a região, inclusive para a Rússia.
- Putin pode estar pensando em uma retirada unilateral, o que seria altamente improvável porque significaria uma humilhação histórica para Putin e, provavelmente, o fim do seu longo reinado. Há tempos se fala num possível golpe palaciano contra ele.
Apesar de seu superior (pelo menos em teoria) poder bélico, a Rússia não está conseguindo avançar, e certamente não está ganhando a guerra. Ao contrário, nos últimos meses a Ucrânia vem realizando eficientes ataques com drones, inclusive em Moscou, e causando grandes incêndios e destruição nas principais instalações petrolíferas russas.
Uma retirada unilateral da Rússia permitiria a Putin sair com a aura de buscar a paz, e inclusive livrá-lo de ter que pagar bilionárias reparações de guerra pela grande perda em vidas humanas e infraestrutura que a invasão russa significou para a Ucrânia nestes mais de 4 anos.
Isto sem falar nos milhares de crianças pequenas ucranianas que foram roubadas de suas famílias nas primeiras semanas da invasão e entregues a famílias russas para serem criadas como tal.
O fim da guerra também seria muito benéfico para a Europa, que entrou em crise (alguns opinam que terminal) com o corte do fornecimento de petróleo e gás russos, com que a Europa poderia voltar a contar, inclusive com a humanitária desculpa de ajudar a Rússia a sair da profunda crise econômica em que ela sozinha se enfiou ao invadir e querer anexar a Ucrânia.
Desde aqui faço votos para que o mal caia e o
bem triunfe; que a Ucrânia saia vitoriosa e o mais rápido possível.

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