Pular para o conteúdo principal

A questão da criminalidade





Com o intrigante título de "A Reivindicação Sucessiva", o jornalista e escritor Élio Gaspari publica na Folha uma interessante teoria cuja leitura recomendo. Segundo o ilustre escriba, a Reivindicação Sucessiva serviria para se opor a uma medida ou iniciativa sem, no entanto, admitir que se é contra.

No exemplo dado, a anunciada intenção do governo de permitir a entrada no Brasil de 6.000 médicos cubanos para trabalharem em regiões onde não haveria médicos. Desde o primeiro momento, o CFM manifestou-se contra, mas a verdade é que o Brasil tem um enorme déficit de profissionais da saúde, que estes estão concentrados principalmente nas regiões Sul e Sudeste, e que a maioria não aceita trabalhar no interior deste vasto e descuidado País.

Voltarei aos médicos cubanos em outra ocasião. O que me ocupa agora é que a teoria da Reivindicação Sucessiva serve, também, para justificar a inação do Poder Público na cada vez mais preocupante questão da segurança. O que o cidadão de bem quer é o fim da impunidade:
  • Penas mais duras e proporcionais à gravidade do crime;
  • Que o criminoso fique preso e não saia tão fácil por “bom comportamento”;
  • Fim do entra-e-sai, em que a polícia prende (quando prende), e o juiz (que cumpre a lei) solta;
  • Diminuição da maioridade penal: marmanjos de 1,90m, que praticam jiu-jitsu e andam armados não são mais "crianças", mesmo sendo menores;
  • Limitar o número de passagens pela polícia de um delinquente, e que criminosos não possam entrar e sair indefinidamente do sistema.
Enquanto isto não foi implementado, o cidadão honesto e trabalhador que sofre a violência diariamente fica torcendo para que, um dia, o meliante se encontre com a bala que o tire definitivamente das ruas.

Justificativas mais comuns para nada fazer:
  • "Presídios são faculdades do crime", (o melhor seria então deixar os meliantes soltos nas ruas para que continuem barbarizando a população);
  • "Delinquentes menores de idade provêm em sua maioria de lares disfuncionais; a solução é a educação (que só dá resultados no longo prazo;
  • "Somente quando tivermos educação de qualidade, e um sistema penitenciário modelo capaz de reabilitar os presos".
Assim, então, qualquer medida só poderá ser implementada quando a sociedade for perfeita. Ou seja, nunca. O cidadão-contribuinte, desarmado, desprotegido e vítima dos criminosos, que se dane.

Acredite se quiser. Foi isto que, mais ou menos, ouvi dias atrás de com uma delegada titular da Delegacia da Mulher em um distrito da Grande São Paulo. O assunto surgiu devido ao recente caso da dentista de SBC-SP que morreu queimada viva por três criminosos, um deles menor de idade. Trata-se de uma postura, que se quer politicamente correta, infelizmente muito comum em certos servidores públicos que estão, ou se consideram, protegidos. Em geral, formulam estas ideias estapafúrdias a partir de gabinetes convenientemente climatizados, longe da barbárie que dia a dia atinge a população indefesa.

Fazem uma interpretação falsamente humanista, que só leva em consideração um dos lados, o que vive às margens da lei, e esquece o outro, que é justamente o que, com seus impostos, paga seus salários e mordomias. Em uma curiosa inversão de valores, culpam a sociedade pela delinquência. Transformam os delinquentes em vítimas, e as vítimas em culpados.

O cidadão de bem, que trabalha honestamente e paga seus impostos, não tem culpa de que algumas pessoas escolham o caminho do crime. Muito mais do que uma questão social ou econômica, é uma questão de índole. Certa classe de seres humanos tem inclinação para o crime. Deixá-los soltos só faz aumentar o número de vítimas. Muitos desses criminosos só poderão ser reintegrados à sociedade depois de um longo tempo e, mesmo assim, não há garantias. Para outros não haverá reabilitação possível.

É triste, mas é a realidade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Tiradentes y Papa Francisco a un año de su muerte

  Hoy 21 de abril es feriado nacional de Tiradentes en Brasil. Joaquim José da Silva Xavier (1746–1792) fue un militar, dentista – por eso el mote de Tiradentes – y activista político minero (del estado brasileño de Minas Gerais), principal líder del movimiento que pasó a la historia de Brasil como Inconfidencia Mineira . Tres décadas antes de que fuera proclamada por Pedro I en 1822 , Tiradentes fue un adelantado de la lucha por la independencia de Brasil y contra la explotación de las riquezas de su patria por la metrópolis portuguesa. Tiradentes lideró el movimiento separatista que buscaba libertar el actual estado de Minas Gerais (en aquel entonces Minas d’Ouro) del dominio portugués y establecer una república. La Proclamación de la República , como se la conoce hoy día, sólo sucedería mediante el golpe militar al monarca Pedro II por parte del Mariscal Deodoro da Fonseca , el 15 de noviembre de 1899 . Tal cual Jesucristo, Tiradentes fue traicionado por integrantes del m...

A queda de Maduro e o futuro da Venezuela

  Com precisão cirúrgica, na madrugada de 03/01/2026 as forças especiais   Delta Force  dos EUA arrancaram Nicolás Maduro e esposa de sua residência em Caracas enquanto dormiam. Não há como não suspeitar de que a cúpula militar corrupta que protegia a Maduro tenha-lhe soltado a mão para não arriscar um confronto bélico com as forças do Tio Sam.  Salvando as distâncias, esta operação  dos EUA foi na mesma data, 36 anos antes, e similar à captura do então ditador panamenho Manuel Noriega em 1990. Alguns meios já falam em "mudança de regime" na Venezuela. Por enquanto, nada permite vislumbrar tal coisa: a vice-presidente Delcy Rodríguez continua em funções (não se sabe com que nível de poder), porque o real homem forte, Diosdado Cabello , já andou se deixando filmar em uniforme militar e falando em "resistência contra a agressão ianque". Fato: o chavismo bolivariano não teria durado 26 anos (1/4 de século) se não estivesse firmemente apoiado nas baionetas d...

The return of the madman

  Tremendo o vídeo do encontro do presidente Trump , o vice-presidente J.D. Vance , e o Volodymyr Zelensky na Casa Branca. Não se tem notícias de outro caso na história em que um chefe de estado tenha sido tão mal tratado e mandado calar a boca como fizeram com o presidente ucraniano. Zelensky se viu sozinho contra os dois titulares do Executivo que lhe deram uma reprimenda em uma língua que não é a sua, e não o deixaram falar . Contra a postura beligerante de Trump , Vance se mostrava com um sorriso irônico como dizendo, "Nada do que você falar aqui vai fazer diferença" . E certo momento, Zelensky pergunta ao Trump , "May I answer?"   Trump lhe responde que não, que ele não tem as cartas para jogar, e "You're disrespecting the country. This country" . Em momento algum Zelensky disse nada que possa ser interpretado como falta de respeito, nem ao presidente Trump , e nem ao povo americano. Aliás, Zelensky não conseguiu falar. Foi uma autêntica cil...