Por estes dias, Dez/2021, as pesquisas indicam Lula com aprox. 40% das intenções de voto nas eleições do ano próximo, e Bolsonaro em sério risco de não chegar ao 2do turno. Curiosamente, os seguidores de ambos os catalogam como “o melhor presidente da história”, título que nenhum dos dois nem remotamente merece.
Não obstante, a militância petista anda alvoroçada e faz questão de lembrar a grande festa de consumo que durou alguns anos no governo Lula. A seguir, tentarei brevemente explicar, porque parece que pouca gente lembra - ou entende - a conjuntura internacional de então que tornou possível a miragem de se chegar ao Primeiro Mundo sem qualquer esforço, ou seja, sem fazer as necessárias reformas política, econômica, administrativa.
Em 2003, primeiro ano do Lula, todas as
crises que tinham assombrado o mundo desde 1994, e que afetaram o governo FHC
(1995-2002) – crise Tequila (1994), crise asiática (1997), default russo
(1998), ataques terroristas às Torres Gêmeas e o Pentágono nos EUA, crise da Convertibilidade argentina (2001) – desapareceram como num
passe de mágica. O que foi que aconteceu?
- Excepcional
liquidez mundial graças à emissão pelos EUA de US$ bi/tri para financiar a
guerra em duas frentes simultâneas, Afeganistão e Iraque, a partir de 2002, após o ataque às Torres Gêmeas em New York em 11/09/2001.
- Consolidação de
China e Índia como potências exportadoras de produtos industriais e de
consumo de baixo preço, e grandes importadores de matérias primas e alimentos.
- Consequente
desvalorização do dólar, que levou ao aumento generalizado das commodities no
mundo, inclusive as que compõem a principal pauta de exportação do Brasil:
minério de ferro, complexo soja, carnes.
- Tudo isto fez com que
os preços das commodities agrícolas e minerais disparassem - o barril de
petróleo bateu em US$150, e o dólar chegou a cair até R$ 1,50 no final do governo Lula (2010).
Paradoxalmente, ao contrário do que sempre acontecia em crises anteriores, em lugar de afetar, desta vez a chamada “crise financeira mundial” de 2008-2009 beneficiou o Brasil. Com Antônio Palocci na Fazenda, e Henrique Meirelles no BACEN, o governo Lula oferecia aos investidores internacionais juros - taxa Selic - mais altos do mundo, o que levou o real a ser a moeda que mais se valorizou frente ao dólar.
Segundo cálculos do sen. José Serra, tal política econômica e monetária francamente destrutiva atraiu aprox. USD 100 bilhões – quantia que considero conservadora – em capitais internacionais que aqui vieram se aproveitar dos juros excepcionalmente altos oferecidos pelo Brasil.
Esses capitais financiaram consumo interno, principalmente de produtos importados. Resultado: o consumidor brasileiro se endividou alegremente a juros internos estratosféricos. A taxa de juros mensal cobrada por bancos e administradoras de cartões de crédito no Brasil superava com folga a taxa de juros anual cobrada nos EUA e na Europa.
Este fluxo de capitais especulativos, excepcional e de difícil repetição, fez a taxa de cambio despencar, o Real se valorizar, e nossa indústria perder primeiro mercados de exportação, depois o mercado interno, e retroceder 30 anos. Por esses dias, lembro de ter visto num hipermercado de São Paulo uma enorme pilha, que calculei seria quantidade equivalente a um contêiner, de cabides de acrílico importados da China.
Por que gastar os dólares obtidos com a exportação de commodities na importação de bugigangas que nossa própria indústria poderia fornecer ao mercado interno?
Num primeiro momento, os empregos perdidos na indústria foram parcialmente substituídos por outros, de menor poder aquisitivo, no comércio. Porém, os melhores, que são os empregos industriais, foram paulatinamente migrando para o exterior. Nas palavras do então governador de SP, Geraldo Alckmin, "O Brasil se tornou caro antes de se tornar rico".
Enquanto isso, políticos do binômio governante PT+PMDB, e seus partidos satélites, faziam a festa: Mensalão, Petrolão, o poço sem fundo de Abreu Lima (PE), a refinaria sucateada super hiper ultra superfaturada de Pasadena, Texas, a transposição do São Francisco, refinarias prometidas aos governadores, pagas antecipadamente, mas nunca construídas, ferrovias sem acabar, hidrelétrica de Belo Monte, estádios superfaturados para a Copa das Copas, falcatruas diversas com os fundos de pensão das gigantes estatais como Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras), Postalis (Correios), etc. A quadrilha lulo-petista não deixou um único caixa sem enfiar suas garras.
A miragem primeiro-mundista começou a ruir já no começo do governo Dilma com o fim do boom das commodities. A economía não crescia, mas o histriônico ministro do Trabalho Carlos Lupi divulgava estatísticas falaciosas que colocavam o desemprego em 4,8%. Não precisa ser doutor em Economia para saber que só pode haver pleno emprego, como se convenciona em qualquer economia com desemprego abaixo de 5%, com altas taxas de crescimento da economia.
Na verdade, o único que crescia era a roubalheira. No seu primeiro ano de governo, Dilma perdeu por denúncias de corrupção nada menos que 6 (seis) ministros da equipe que lhe tinha sido arranjada por Lula. Era o prenúncio da crise econômica que acabou estourando no seu colo, e que rapidamente inverteu a equação gerando inflação, desemprego, e a pior recessão da história até então, além de acelerada degradação moral.
Este foi, em grandes pinceladas, o legado dos governos lulo-petistas cujas consequências padecemos até hoje - e que isto não signifique uma justificativa do lamentável governo Bolsonaro. A festança de consumo lulo-petista foi uma miragem resultante de medidas econômicas, monetárias e tributárias irresponsáveis, de curto prazo, que provocaram distorções que só vieram a ser sentidas tempo depois.
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