A foto acima não é montagem nem ficção. Pertence à Marcha para Jesus realizada em Vitória, ES, no sábado 23/07/2022. Isso mesmo: uma marcha, supostamente dedicada a Jesus, em que um militar retirado levou uma reprodução gigante de um revólver calibre 38, e outro manifestante se exibiu trajando uma camiseta com um caixão com as cores do partido adversário nas costas.
No FB, hoje uma jovem mulher que se apresenta como advogada postou a seguinte pérola:
“Pedro andava armado, os anjos andam armados. Espero que nunca ocorra, mas se algum bandido entrar na sua casa e pegar sua filha, cante Imagine enquanto ele a mantém refém e pode fazer coisas ainda piores com ela. Pegue um lenço branco e amarre em um pau e abane.”
É a típica ladainha dos armamentistas: se um bandido entrar na nossa casa para estuprar nossa mulher ou nossa filha, em lugar de usar uma arma, que a gente cante “Imagine” ou agite um pano branco. Estupidez que tem algumas variantes: anos atrás postavam que a gente cantasse uma música da Beyoncé (não lembro qual).
Ignorantes repetem estas frases há anos com o único objetivo de justificar o porte de armas. Partem do falso pressuposto de que o bandido vai entrar na sua casa como quem anda distraído olhando vitrines no shopping, e você é que vai surpreende-lo. Isto só acontece em raras ocasiões, ou o número de assassinatos no País não seria tão espantosamente alto.
Como dizia aquela socialite: Hello! Em 99,9% dos casos é o bandido que te pega de surpresa. Ele entra na tua casa armado, depois de ter estudado o ambiente, e disposto a matar se for preciso - ou se lhe der na telha. Enquanto isso, se você perceber, e tiver tempo para tanto, vai correr até a gaveta onde guarda a arma, provavelmente descarregada para evitar um acidente doméstico com seu filho pequeno, carregá-la, e se dispor a enfrentar o(s) bandido(s) que, a essa altura, já fez(fizeram) você, sua mulher e filhos de refém.
Conclusão óbvia: quanto mais falam, mais armamentistas inconsequentes exibem sua ignorância e total desconhecimento da realidade.
“Ah, mas então você é contra as armas?” “Acha que a polícia vai te defender?” Sou consciente de que a polícia só chega ao local do crime depois do fato consumado, e que somente em raras ocasiões tem alguma chance de impedir o crime. Isto é assim em qualquer lugar do mundo.
De há muito sou a favor da POSSE de arma para defesa pessoal, mas não do PORTE indiscriminado, que vai acabar acontecendo porque a concessão de porte já se tornou um lucrativo negócio. Entendo que o PORTE de armas deve ser restrito às forças de segurança, que devem ser bem treinadas e equipadas para defender a população e, principalmente, protegidas da influência política e da estupidez coletiva.
Ademais, facilitar o acesso do cidadão comum às armas não constitui política de segurança pública – algo que o governo Bolsonaro nunca teve. Não é assim que se combate a delinquência. Se qualquer um tiver acesso às armas, vai acabar tendo gente dando tiro em briga de trânsito - alguns dizem que isto já está acontecendo - e ai veremos os números de assassinatos no Brasil – que já são altíssimos – aumentar ainda mais.
Muita gente se deixa enganar pelos filmes de Hollywood em que um anónimo cidadão ou policial, tipo John McLane (Duro de Matar, 1988) desfaz os planos de um bem treinado, fortemente armado, e inescrupuloso grupo de terroristas internacionais. Pelas estatísticas, nos EUA há hoje o equivalente a uma arma de fogo para cada habitante. Claro que muitos americanos não têm armas, enquanto outros possuem um verdadeiro arsenal com alto poder de fogo.
É preciso levar em conta que os EUA participaram de todas as guerras havidas no mundo nos últimos 100+ anos. Ao contrário, o Brasil só participou da Guerra do Paraguai (1864-1870), e enviou um reduzido contingente de “pracinhas” da FEB à 2da Guerra Mundial em 1944. De lá pra cá, só missões de paz.
Em consequência, os EUA têm uma alta porcentagem da sua população treinada militarmente e familiarizada com o manejo de armas de fogo. Mesmo assim, com frequência quase semanal, somos surpreendidos por notícias de shootings com expressivo número de vítimas fatais por lá.
A resposta, então, é NÃO. Como sei que a polícia não vai chegar em tempo hábil para me defender de um possível agressor, também sei que, se como vítima eu sacar minha arma na hora errada, isso poderá significar minha morte prematura, e a desgraça daqueles que tento defender. Se nosso sistema policial-judicial fosse mais eficiente, muitos criminosos, em geral reincidentes, permaneceriam atrás das grades e não andariam soltos por ai barbarizando a população.
Fato irrefutável: nosso sistema policial-judicial solta com muita facilidade e rapidez os criminosos, não apenas assaltantes, estupradores, assassinos, sequestradores, mas também políticos corruptos e empresários cúmplices que costumam desviar R$ bilhões dos cofres públicos.
Esta falha está na raiz da nossa Segurança Pública, que é muito deficiente e nunca é seriamente abordada pelos governos, sejam estes de esquerda, centro, ou direita. Segurança Pública virou chavão muito usado em tempos de campanha, para ser logo depois esquecido até a próxima eleição.
As penas que criminosos deveriam cumprir estão determinadas no Código Penal, que é federal e só pode ser reformado pelo Congresso Nacional. Sempre defendi que os estados da Federação pudessem ter seu próprio Código Penal. Entendidos no assunto me alertaram que a CF não permite. Em consequência, a população vive pedindo mão dura, algo que a polícia não pode oferecer, porque só lhe é permitido operar dentro da lei.
Segurança Pública é assunto delicado e requer, além de armas e treinamento, inteligência. Pergunta: o que o governo Bolsonaro tem feito para que criminosos:
a) Permaneçam na cadeia; e
b) Cumpram de forma efetiva suas penas.
A resposta é: absolutamente nada. Ao contrário, durante todo seu mandato o presidente tem promovido um amplo e irrestrito menu de desrespeito às normas constituídas.
Assim, o preço que a sociedade paga vai ficando cada vez mais alto.

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