Nas últimas semanas diversos analistas voltaram sobre um assunto que parecia esquecido, pelo que temos que agradecer ao caos na economia mundial provocado por Donald Trump: o que em Economia se conhece como Dilema de Triffin, um dos paradoxos mais relevantes da economia internacional, e que se refere à contradição existente entre, por um lado, a necessidade global de liquidez, e por outro a estabilidade da moeda de reserva.
O dilema foi formulado pelo economista belga-americano Robert Triffin na década de 1960, quando analisou o sistema de Bretton Woods que, em 1944, no apagar das luzes da 2da Guerra Mundial, estabeleceu o dólar americano como a principal moeda de reserva mundial, lastreada em ouro a uma taxa de câmbio fixa de US$ 35 por onça.
Este sistema durou até que em 1971 o presidente americano Richard Nixon decretou o fim da convertibilidade do dólar em ouro. Caso contrário, para manter a taxa de conversão, os EUA se veriam na necessidade de comprar quantidades cada vez maiores de ouro para respaldar sua emissão de dólares, seja por necessidades internas ou externas.
O Dilema de Triffin se dá porque o país cuja moeda é utilizada globalmente como meio de pagamento e reserva de valor precisa emitir grandes quantidades dessa moeda para atender à demanda internacional. Com o tempo, o aumento da oferta pode gerar déficits comerciais e desvalorização, prejudicando assim sua credibilidade no longo prazo.
Este é parte do problema que os EUA vêm enfrentando há vários anos, mas não o único.
Por outro lado, os EUA nunca teriam se tornado o país mais rico e próspero do mundo se sua moeda não tivesse ampla aceitação internacional, e o único país capaz de emitir dólares com que pagar seus investimentos, dívidas e importações. Para fazer o mesmo, qualquer outro país precisa obter dólares, seja pela via das exportações, do endividamento, ou de ambos.
Foi a força do dólar que, nos últimos 80 anos, desde 1945, permitiu aos EUA, se impor como potência econômica e militar por sobre todos os outros países do globo. Os déficits comerciais que os EUA mantêm com a maioria dos países foi o que permitiu o fantástico crescimento das empresas americanas, que foram gradualmente terceirizando produção em outros países retendo a propriedade intelectual.
O verdadeiro problema dos EUA não reside em seus déficits comerciais, que tanto têm beneficiado empresas e consumidores americanos, mas no déficit fiscal que, no final de 2024, atingiu o recorde de US$ 1,8 trilhões, ou incríveis 135% do PIB do país. É o resultado de poder emitir moeda praticamente sem limites para cobrir todas suas necessidades.
A ninguém parece chamar a atenção que, sendo seu território atingido todos os anos por violentos tornados e furacões, os EUA conseguem reconstruir tudo em tempo recorde. Ou que o país é capaz de enviar prontamente suas Forças Armadas do outro lado do mundo em caso de conflito.
Nada disso seria possível sem o dólar. Se a moeda de pagamento internacional e reserva de valor fosse emitida por uma entidade multilateral independente e sujeita a outro tipo de restrições nada disso não seria possível.
O excesso de emissão para financiar a guerra em duas frentes simultâneas, Afeganistão e Iraque, após os atentados terroristas de Al Qaeda ao WTC em 2001, e o surgimento de China e Índia como as fábricas do mundo, foi o que provocou a crise financeira internacional de 2008, a disparada dos preços das matérias primas, e o boom de commodities.
Por isso, faz sentido o esforço do governo Trump em diminuir o tamanho do governo federal num movimento similar ao da motosserra de Javier Milei – em quem Elon Musk se inspirou para seus cortes no DOGE. O problema é que os EUA não são a Argentina, e os desafios que o bilionário sul-africano e seu chefe também bilionário enfrentam são de outra índole, muito mais complexos.
O que não faz sentido é desatar o caos na economia mundial como Trump anda fazendo com suas tarifas recíprocas que afetam seus principais sócios comerciais e também, em grande medida, as empresas e os consumidores americanos.

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