A situação, apesar de muito complicada, é no fundo muito simples: Dilma está levando o chumbo grosso pelos 12 anos de desgoverno do PT. Sem dúvida, ela é incompetente, teimosa, e de caráter difícil, mas deve ser muito fácil de manipular pelo Lula e, por isso, deve ter sido escolhida como sucessora, para ser bode expiatório.
Fato: durante seus dois mandatos o Lula navegou em céu de brigadeiro e, quando o ciclo do real valorizado e os altos preços das commodities chegava ao fim, foi a vez de Dilma assumir o governo. Recebeu assim uma bomba de tempo que agora estoura em seu colo. Isto não a isenta de responsabilidade: como o Lula, ela é corrupta e incompetente. Seu primeiro mandato foi um desastre, e o segundo começou muito pior.
O PT pode querer usar isso - a manifesta incompetência e falta de carisma da Dilma, e os sucessivos escândalos de corrupção (mensalão, Petrobras, BNDES) - para aplicar um autogolpe, recurso vil e antidemocrático, mas já usado com sucesso pelos companheiros da Pátria Grande: Hugo Chávez (Venezuela), Rafael Correa (Equador), e Evo Morales (Bolívia). Na Argentina, depois do assassinato do promotor de justiça Alberto Nisman, há suspeitas de que o governo de Cristina Kirchner poderia ir pelo mesmo caminho.
A desculpa é a situação atual: o descontentamento gerado por medidas fortemente recessivas - aumento de juros, impostos, combustíveis, tarifas de energia - que Dilma tomou assim que ganhou as eleições de Outubro de 2014, medidas que vão na contramão de tudo que prometeu durante a campanha e aprofundam o retrocesso moral, econômico e social que tomou conta do Brasil. A culpa, segundo o PT, seria das políticas do ministro Joaquim Levy (sempre sorridente nas fotos sem que a gente saiba por que).
O objetivo, não admitido, seria buscar uma fórmula extra-constitucional que permita reconduzir Lula à presidência e salve o projeto de poder do PT. Constitucionalmente não é possível, então é preciso gerar um fato que cause comoção nacional ao ponto de provocar o que, é difusamente chamado de intervenção institucional. Com isto, o PT estaria se antecipando ao que Lula mais teme: uma possível - inclusive reivindicada por uma parte da população - intervenção das Forças Armadas, na esteira dos protestos que vão tomando conta do país, contra a deslavada corrupção, e a favor do impeachment da Dilma.
Uma intervenção militar não seria a saída mais desejável para o desastre a que o PT está levando o Brasil - o ideal seria uma solução dentro do sistema republicano e democrático. Por outro lado, a corrupção está tão alastrada, e a situação econômica se deteriorou a tal ponto que muitos não veem outra saída, e é preciso reconhecer que boa parte da população enxerga nas Forças Armadas a reserva moral que há muito a classe política perdeu.
De fato, o Lula já andou falando desse temor, e de que "Dilma deveria pedir desculpas à Nação", argumento com o qual - talvez o chefe da quadrilha não perceba - tacitamente admite os malfeitos - como diria FHC - de que o governo é acusado. Ninguém precisaria pedir desculpas se não tivesse feito algo de errado. Foi por isso também que, no absurdo ato pela defesa da Petrobras, Lula cometeu o tremendo desatino de convocar "o exército do MST".
Os tempos vão se acelerando e, sob o comando do PT, o Brasil avança a passos gigantes para se transformar numa imensa Brasilzuela. Os indícios são inegáveis: aparelhamento total do governo, decadência moral, degradação econômica, inflação, desemprego, recessão, endividamento crescente, déficit na balança comercial, corrupção galopante.
Tudo isto no ano em que se completam 30 anos do fim do regime militar e a volta da democracia. Muitos achamos que não há muito o que comemorar.

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